Sonhos e Símbolos

Jung, arquétipos e a linguagem dos sonhos

Sombra, anima, persona: como a psicologia analítica aproximou os sonhos dos mitos e dos símbolos antigos.

Equipe Esoverso

4 min de leitura

Por que pessoas que nunca leram mitologia sonham com serpentes, labirintos, velhos sábios e travessias de rios? Por que certos símbolos aparecem em culturas que nunca tiveram contato entre si? Essas perguntas guiaram boa parte da obra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, que propôs uma das formas mais influentes de entender os sonhos e criou conceitos que hoje fazem parte da linguagem comum, como arquétipo, sombra e introversão.

Quem foi Jung

Jung nasceu em 1875, na Suíça, e morreu em 1961. Foi por alguns anos o colaborador mais próximo de Sigmund Freud, que chegou a vê-lo como seu sucessor. Os dois romperam por volta de 1913, em grande parte por divergências sobre a natureza do inconsciente. Jung fundou então a sua própria escola, a psicologia analítica.

Ele se interessou profundamente por mitologia, religiões comparadas, alquimia, astrologia e pelo I Ching, o que fez dele uma ponte entre a psicologia e o estudo do simbolismo. Esse interesse também o tornou alvo de críticas de colegas mais ligados à ciência experimental, debate que continua até hoje.

O inconsciente coletivo

Para Freud, o inconsciente era sobretudo pessoal, formado por desejos e memórias reprimidos. Jung concordava que existe esse inconsciente pessoal, mas propôs que, abaixo dele, haveria uma camada mais profunda e compartilhada por toda a humanidade: o inconsciente coletivo.

Essa camada não guardaria memórias específicas, e sim predisposições, formas típicas de perceber e reagir a experiências humanas universais, como nascer, ter mãe e pai, amar, envelhecer e morrer. A essas formas Jung deu o nome de arquétipos.

O arquétipo é como um leito de rio: a água muda, mas o caminho por onde ela corre se repete.

Os principais arquétipos

  • Persona: a máscara social, o papel que mostramos ao mundo. Necessária, mas perigosa quando confundida com quem realmente somos.
  • Sombra: tudo aquilo que não aceitamos em nós e preferimos ver nos outros. Nos sonhos, aparece muitas vezes como uma figura do mesmo sexo, ameaçadora ou desprezível.
  • Anima e animus: a imagem interna do feminino num homem e do masculino numa mulher, segundo a formulação original de Jung. Leituras atuais costumam falar de modo mais amplo em aspectos contrassexuais ou complementares da psique.
  • Si-mesmo: o centro e a totalidade da psique, o arquétipo da inteireza. Aparece em imagens de círculos, mandalas, crianças divinas e figuras sábias.
  • Outros arquétipos frequentes: a Grande Mãe, o Velho Sábio, a Criança, o Herói, o Trickster ou trapaceiro.

Como Jung lia os sonhos

Para Jung, o sonho não disfarça uma mensagem escondida, como propunha Freud. Ele é uma expressão natural e espontânea do inconsciente, que fala em imagens porque essa é a sua língua. A pergunta mais útil diante de um sonho não seria apenas “por quê?”, mas “para quê?”: o que esse sonho está tentando mostrar?

A função compensatória

Uma das ideias centrais é a de compensação. Os sonhos tenderiam a equilibrar a atitude consciente. Alguém que se vê sempre como forte e independente pode sonhar que está frágil e precisa de ajuda; alguém que se desvaloriza pode sonhar que é rei. O sonho mostraria o que está faltando.

O método da amplificação

Para interpretar um símbolo, Jung partia das associações pessoais do sonhador e depois o amplificava, buscando o mesmo símbolo em mitos, contos e tradições religiosas. Uma serpente no sonho poderia ser ligada às serpentes da mitologia, da alquimia e da medicina, sempre voltando ao que fazia sentido para aquela pessoa.

Como trabalhar os seus sonhos

  • Anote os sonhos logo ao acordar, antes de pegar o celular, mesmo que sejam só fragmentos.
  • Registre também as emoções do sonho: muitas vezes elas dizem mais do que a história.
  • Para cada figura importante, pergunte: que parte de mim essa figura poderia representar?
  • Observe as séries: os mesmos temas e personagens ao longo de semanas mostram um processo em andamento.
  • Desconfie de dicionários de sonhos com significados fixos. Para Jung, o contexto pessoal vinha sempre em primeiro lugar.

Para refletir

A grande contribuição de Jung foi devolver dignidade aos sonhos e aos símbolos. Ele mostrou que as imagens que aparecem à noite podem ser parceiras no caminho de autoconhecimento, e que os mitos antigos continuam vivos dentro de cada pessoa. Ouvir os próprios sonhos é uma forma de conversar com a parte de nós que não fala em palavras.

Próxima leitura

Sonhos e Símbolos

Sonhar com água: mar calmo, enchente e chuva

Continuar lendo

Mais para ler

Todos os artigos
O esoverso.com utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Conheça nossa Política de Privacidade.