
Samhain: a noite em que o véu fica mais fino
A festa celta que marca o fim da colheita e honra os ancestrais, e como ela é celebrada no Hemisfério Sul.
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Para muitos praticantes de bruxaria e de caminhos pagãos, Samhain é a festa mais importante do ano. É a noite em que se honra quem veio antes, em que se encerra um ciclo e em que, segundo a tradição, a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos fica mais tênue. Ela também está na origem de uma festa que o mundo inteiro conhece: o Halloween.
A festa celta
Samhain, pronunciado aproximadamente como “sáuin”, era uma das quatro grandes festas sazonais do calendário gaélico, celebrada na Irlanda, na Escócia e na Ilha de Man. Marcava o fim da colheita e o começo da metade escura do ano. Era o momento de recolher o gado dos pastos, abater os animais que não sobreviveriam ao inverno e estocar alimentos.
Os textos medievais irlandeses descrevem Samhain como um período em que o Outro Mundo, o mundo dos seres encantados e dos mortos, ficava mais próximo. Muitas narrativas mitológicas importantes acontecem nessa data. Fogueiras eram acesas e a festa tinha também uma dimensão comunitária: assembleias, banquetes, acertos de contas antes do inverno.
Samhain é o ano-novo das bruxas: termina o ciclo da colheita e começa o tempo do silêncio fértil.
De Samhain ao Halloween
Com a cristianização das ilhas britânicas, a Igreja fixou o Dia de Todos os Santos em 1º de novembro e, mais tarde, o Dia de Finados em 2 de novembro. A véspera de Todos os Santos, All Hallows’ Eve em inglês, deu origem à palavra Halloween. Costumes populares ligados a Samhain, como usar disfarces, ir de casa em casa e esculpir lanternas em nabos, sobreviveram e se misturaram às festas cristãs.
Imigrantes irlandeses e escoceses levaram esses costumes para os Estados Unidos no século XIX, onde o nabo foi trocado pela abóbora e a festa ganhou o formato comercial que se espalhou pelo mundo. No Brasil, a data também convive com o Dia do Saci, celebrado em 31 de outubro como resposta de valorização do folclore nacional.
Os temas de Samhain
- Ancestralidade: lembrar os que morreram, contar suas histórias, reconhecer o que deles vive em nós.
- Fim de ciclo: encerrar o que não serve mais, como uma colheita que precisa ser recolhida.
- Morte e renascimento: a semente que desce à terra no escuro para brotar depois.
- Introspecção: o início da metade escura do ano favorece o olhar para dentro e para o que está oculto.
- Divinação: por ser um momento de véu mais fino, é tradicional fazer leituras de oráculos nessa noite.
Quando celebrar no Brasil
Samhain acompanha a passagem do outono para o inverno. No Hemisfério Norte, isso acontece entre 31 de outubro e 1º de novembro. No Hemisfério Sul, as estações são invertidas, e muitos praticantes brasileiros celebram Samhain entre 30 de abril e 1º de maio, quando o outono avança por aqui. Nessa leitura, o fim de outubro é tempo de Beltane, a festa da primavera.
Há quem celebre nas duas datas, ou que siga a data do Norte por estar ligado a uma tradição específica. Não há regra única: o importante é que a celebração faça sentido com o ciclo que você vive.
Formas simples de celebrar
- Monte um altar dos ancestrais com fotos, objetos, flores e uma vela para quem já partiu.
- Prepare uma ceia silenciosa, com um lugar reservado à mesa para os antepassados.
- Escreva num papel o que você quer deixar para trás neste ciclo e queime com segurança.
- Faça uma tiragem de tarot ou de Baralho Cigano sobre o ciclo que está começando.
- Converse com os mais velhos da família e registre as histórias que eles contam.
Para refletir
Numa cultura que evita falar da morte, Samhain oferece um espaço para olhá-la com respeito e até com ternura. Lembrar os ancestrais é lembrar que não começamos do nada: somos continuação de muitas vidas. E encerrar ciclos com consciência é uma forma de preparar o terreno para o que vai nascer.




