Baseado e adaptado de artigo publicado na edição 78 da Revista Morashá
O Rabino Lord Sacks foi um dos líderes religiosos mais importantes de sua época, tanto no plano judaico quanto universal. Grão-Rabino das CongregaJonathan ções Judaicas Unidas da Grã-Bretanha e da Commonwealth entre 1991 e 2013 e dono de uma personalidade marcante, o Rabino Sacks foi um professor excepcional e autor extremamente prolífico. Fonte de aconselhamento para políticos e governantes, era essencialmente um erudito e filósofo. Além de seu grande dom de oratória, foi autor de 25 livros, a maioria traduzida para vários idiomas, sendo colaborador frequentemente da mídia inglesa através do rádio, da televisão e de seus principais jornais.
Desde o início de sua jornada como rabino, os temas mais abordados por ele, através dos mais diferentes meios de comunicação e perante os mais diversos públicos, estavam relacionados à moral e à filosofia judaica. Com suas mensagens, procurava sensibilizar judeus e não judeus para questões que considerava essenciais para o mundo atual.
Reconhecido como o Rabino do Mundo, Jonathan Sacks foi agraciado com inúmeros prêmios por sua atuação dentro e fora da comunidade judaica, entre eles o Prêmio Jerusalém, em 1995, por sua contribuição à vida judaica na Diáspora; em 2011, o Prêmio Ladislaus Laszt, pelo envolvimento ecumênico e cocial, concedido pela Universidade Ben-Gurion; e em 2016, o Templeton Prize. A lista é enorme!
Em 2005, a Rainha Elizabeth II o condecorou como Cavaleiro. Elevado a Par do Reino, recebeu assento na Casa dos Lordes em 27 de outubro de 2009, como membro apartidário, sob o título de Barão Sacks de Aldgate, na Cidade de Londres.
Rabino Jonathan Sacks: uma breve biografia
Jonathan Henry Sacks nasceu em Londres, em 1948. Casado com Elaine, desde 1970, teve três filho – Joshua, Dina e Gila – e seis netos. Sua filha, Gila, foi assessora especial do Primeiro-Ministro Gordon Brown.
Considerado um dos pensadores mais originais do mundo judaico, o Rabino Sacks teve uma abrangente formação, tanto secular quanto religiosa. Antes de iniciar sua preparação teológica, estudou Filosofia na Universidade Gonville e no Caius College, em Cambridge, onde se formou em 1969. Logo após, estudou em Israel na Yeshivat Tomchei Temimim.
De volta à capital inglesa, continuou seus estudos seculares e obteve, em 1972, o mestrado em Filosofia no New College, Oxford. Em 1973, deu continuidade a seus estudos religiosos no Jews’ College (hoje, Escola de Estudos Judaicos) de Londres. Recebeu sua Semichá – a ordenação rabínica – três anos mais tarde, dessa escola e da Yeshivá Etz Chaim. Em 1976, tornou-se rabino da Sinagoga Golders Green, em Londres, onde ficou até 1983, quando assumiu o posto na Sinagoga de Marble Arch.
Cabe salientar que, posteriormente, ele obteve o doutorado no renomado Kings’ College de Londres (1981), e, no decorrer de sua brilhante carreira, foi agraciado com nada menos que 14 títulos de “Doutor Honoris Causa”, além do título de “Doutor em Divindade”, conferido a ele pelo Arcebispo de Canterbury para marcar sua primeira década como Rabino-Chefe.
Suas obrigações como rabino não o impediram de ensinar. Foi professor da cadeira de Pensamento Moderno Judaico no Jews’ College e, em 1984, assumiu a direção da escola, permanecendo no cargo até se tornar Rabino-Chefe da Grã-Bretanha. Grande acadêmico, ocupou cátedras na Universidade de Londres e de Manchester, mantendo ainda hoje o cargo de Professor Visitante em prestigiosas universidades do Reino Unido, Estados Unidos e Israel.
Em 1º de setembro de 1991, aos 43 anos de idade, o Rabino Sacks se tornou o Rabino-Chefe das Congregações Judaicas Unidas, sucedendo o Rabino Lord Jakobovits.
Um encontro inspirador
Muitos perguntaram ao Rabino Sacks como ele se tornou um líder espiritual. Durante uma entrevista, ele revelou o que o levou a seguir este caminho:
“Eu tive o enorme privilégio, em 1968, com 20 anos, quando estudante em visita aos Estados Unidos, de ter dois encontros que mudaram a minha vida: um com o Rebe de Lubavitch, e outro com o Rabino Joseph Ber Soloveitchik, ambos já falecidos. O Rebe de Lubavitch me desafiou a ser um líder, enquanto o Rav Soloveitchik me levou a ser um pensador. Esses dois momentos, há tanto tempo, moldaram a minha vida.”
O Rabino Sacks costumava contar que em três momentos cruciais de sua vida o Rebe de Lubavitch lhe indicou o caminho a ser seguido. O primeiro deles foi em 1968, como mencionado acima. Ele foi ao número 770 da Eastern Parkway para ver o Rebe, mas os chassidim lhe avisaram que seria praticamente impossível conseguir uma hora. Ele insistiu muito e deixou um telefone onde podia ser localizado. Quando recebeu a notícia de que o Rebe o receberia, estava em Los Angeles. Não teve dúvidas e viajou 72 horas de ônibus de volta a Nova York.
No encontro, após uma “conversa intelectual e filosófica”, o Rebe começou a lhe fazer perguntas: Quantos estudantes judeus havia em Cambridge, quantos estavam envolvidos com a vida judaica e o que ele pessoalmente estava fazendo para atrair mais judeus?
Tentando se esquivar, ele respondeu: “Na situação em que me encontro…”, mas o Rebe fez algo que não lhe era comum: ele o interrompeu no meio da frase e disse: “Ninguém se encontra em uma situação; você se coloca em uma situação! E se você se coloca em uma situação, pode também se colocar em outra.” “Aquele momento mudou a minha vida”, afirmou o Rabino Sacks.
Ao voltar à Inglaterra, ele se casou e começou a dar aulas de Filosofia, enquanto trabalhava em sua tese de doutorado. Mas, sentindo que não tinha se empenhado em responder ao desafio do Rebe, começou a estudar para obter a Semichá – a ordenação rabínica – e se qualificar como rabino. Considerando que isso era o bastante, decidiu que já era tempo de retomar sua vida.
Em 1978, novamente ele foi visitar o Rebe. Estava diante de um dilema pessoal: se devia ou não seguir a carreira acadêmica e tornar-se professor, economista ou advogado – um advogado que debatesse em todos os tribunais superiores. A resposta do Rebe foi categórica: “Nenhuma das três opções. O judaísmo inglês está carente de líderes religiosos e, assim sendo, você deve preparar rabinos no Jews’ College e se tornar rabino de uma congregação. Assim, seus alunos ouvirão seus sermões e aprenderão com eles.” O Rabino Sacks fez o que o Rebe lhe aconselhou: preparou rabinos, ensinou no Jews’ College e se tornou rabino de uma congregação.
Durante um jantar de gala da Conferência dos Emissários de Chabad-Lubavitch, em novembro de 2011, o Grão-Rabino contou:
“Ao desistir das minhas três ambições de carreira e decidir seguir numa direção totalmente oposta, uma coisa engraçada aconteceu: tornei-me fellow da minha faculdade, em Cambridge, e me tornei professor… Também fiz duas importantes palestras sobre assuntos econômicos prementes para a Grã-Bretanha… e a Inner Temple me concedeu o título de Advogado Honorário e me convidou para proferir uma aula sobre Direito perante 600 juristas, além do Lord Chancellor – o posto mais alto entre os advogados – e a Princesa Anne. Com isso, vejam, nunca se sai perdendo por colocar o judaísmo em primeiro lugar! E eu aprendi algo: às vezes, a melhor maneira de realizar suas ambições é parar de procurá-las e deixar que elas o procurem.”
Em 1990, mais uma vez o Rebe desempenhou um papel crucial na trajetória de vida do Rabino Sacks. O judaísmo britânico buscava um novo Rabino-Chefe. Tudo indicava que ele seria um dos candidatos. Mas ele não tinha certeza de ser a pessoa certa para o cargo nem se o cargo era certo para ele. Pediu o conselho do Rebe: “Se eles me oferecerem a posição, devo aceitar?” O Rebe respondeu que sim. E ele assim o fez, ajudando a traçar o rumo e a moldar o perfil da comunidade judaica britânica nas décadas seguintes.
Atuação como Rabino-Chefe
O cargo de Rabino Chefe foi criado na Grã-Bretanha em 1845 e Rabino Sacks foi o sexto líder espiritual a desempenhar essa função. Ele liderou o Gabinete do Rabinato-Chefe, composto de outros 14 rabinos que atuavam como seus conselheiros em várias áreas, como educação judaica, Israel, relações cristão-judaicas, assuntos relacionados ao Beit Din (Tribunal Rabínico) e inúmeras outras que requeriam a atenção dos membros religiosos da comunidade.
Desde o dia em que assumiu o cargo, ele se empenhou em implementar vários projetos inovadores, construir novas escolas e melhorar o nível da educação judaica inglesa, visando a formação de líderes. Ele sempre enfatizou a necessidade de chegar aos judeus que, de alguma forma, sentiam-se negligenciados pela comunidade judaica.
Durante os dez primeiros anos, priorizou as áreas de juventude, das mulheres e das pequenas comunidades espalhadas pela Grã-Bretanha, através de um programa que denominou de “Década da Renovação Judaica”, uma iniciativa que tinha como objetivo aprimorar inúmeros aspectos da vida judaica britânica, incluindo educação e desenvolvimento comunitário.
Em 1993, como parte desse programa, criou a “Continuidade Judaica”, uma fundação nacional voltada à elaboração de programas educacionais, culturais e trabalho comunitário de campo. Esta fundação abrangia toda a comunidade e visava, principalmente, despertar o interesse da juventude em relação à sua herança judaica.
Criou, ainda, a “Associação de Ética Judaica nos Negócios” e o programa de bolsas de estudo do Rabinato-Chefe e o “Desenvolvimento Comunitário”, um programa nacional para aperfeiçoar a vida judaica nas comunidades, em parceria com a União das Sinagogas. Em 1993 criou o “Prêmio de Excelência do Rabinato-Chefe”, premiando pessoas comuns por trabalho de valor, em todo o país, cujo mérito ainda não fosse reconhecido pela comunidade.
Iniciou sua segunda década no cargo com um apelo à “Responsabilidade Judaica” e um renovado comprometimento com a dimensão ética do judaísmo.
Assimilação e antissemitismo
Para o Rabino Sacks, os maiores desafios que a Diáspora enfrentava eram a assimilação e o antissemitismo, e o caminho para combatê-los era fortalecer a identidade judaica por meio da educação judaica desde a infância. Ele se empenhou em levar os membros da comunidade a colocarem seus filhos em escolas judaicas, pois acreditava que esta era a única forma efetiva de combater a assimilação. Segundo ele, os setores da comunidade que assim pensassem conseguiriam reduzir consideravelmente os casamentos mistos. Certa vez, ele enfatizou sua crença na educação judaica, dizendo: “Nós estamos perdendo judeus num ritmo alarmante! Se não fizermos nada, a comunidade morrerá. Para nós, a solução é evidente: temos de revigorar e rejuvenescer a comunidade, e a história nos ensinou que a educação é a ferramenta mais poderosa… Estamos numa guerra, e na guerra os fins justificam os meios.”
Visando atingir os pais de crianças judias, ele endossou uma polêmica campanha publicitária para promover o debate público. Sobre isso, ele declarou: “Lançamos um grande anúncio com lindos jovens judeus, aqueles que nós todos queríamos que nossos filhos fossem, e um a um eles iam caindo no abismo… e o título dizia: ‘A Grã-Bretanha vem perdendo judeus dia após dia, há 40 anos.’ E a campanha funcionou!”
Em 1993, 25% das crianças da comunidade estudavam em escolas judaicas; em 2005, este índice subiu para 63%. Essa tendência teve reflexos na vida comunitária em geral, com um aumento das manifestações artísticas judaicas, maior participação em festivais de cinema, realização de conferências, além da criação de centros comunitários e museus. “A comunidade está crescendo novamente”, afirmou então o Rabino-Chefe.
O antissemitismo era, sem dúvida, um grande problema na Europa. O Rabino Sacks acreditava que, para combatê-lo, os judeus deviam contar com aliados: “Não podemos combater o antissemitismo sozinhos. A vítima não pode curar o crime, os odiados não podem curar o ódio. Assim, estamos trabalhando sobre este problema, na Inglaterra, e conseguimos ser o primeiro país onde a luta contra o antissemitismo é conduzida por não judeus.”
Seu país, afirmou, tem uma tradição de convivência entre os diferentes grupos que formam a sociedade, e citou como exemplo a criação do “Conselho de Cristãos e Judeus” em 1942, durante o Holocausto, pelo arcebispo William Temple e pelo Rabino-Chefe Joseph Hertz. “Esta foi uma das primeiras grandes organizações interreligiosas da Grã-Bretanha. Atualmente, há centenas de grupos similares que criam laços de amizades através das fronteiras das diferentes religiões, onde, de outro modo, imperaria a desconfiança e o medo”, disse Rabino Sacks. Em 1952, no primeiro ano de seu reinado, a Rainha Elizabeth tornou-se patrona da entidade.
O Rabino e a Realeza
Quando falava das relações entre a comunidade e a realeza, a Rainha em especial, o Rabino Sacks costumava mencionar um episódio que presenciou durante o 60º aniversário da libertação do campo de Auschwitz:
“Era o dia 27 de janeiro de 2005. Estávamos no Palácio St. James. A Rainha encontrava-se com um grupo de sobreviventes do Holocausto. Quando chegou o momento de partir, ela permaneceu no local. Um de seus acompanhantes disse que jamais a tinha visto ficar após a hora marcada. Ela deu a cada sobrevivente – era um grupo grande – total atenção, sem nenhum sinal de pressa. E permaneceu no local até que cada um terminasse de contar sua história pessoal. Foi um ato de bondade que quase me fez chorar. Um após o outro, os sobreviventes vinham a mim dizendo: ‘Há 60 anos, eu não sabia sequer se estaria vivo no dia seguinte, e veja, estou aqui hoje, conversando com a Rainha!’.”
Segundo ele, os judeus sentiam grande respeito pela soberana e pela família real. Em cada Shabat, as comunidades faziam uma prece especial abençoando-a e brindavam em sua homenagem em cada jantar comunitário. “Eles dão valor à Rainha, pois sabem que ela faz o mesmo em relação a eles.”
A obra do Rabino Jonathan Sacks
Escritor nato, o Rabino Sacks escreveu 25 livros de interesse de judeus e não judeus. Sua obra foi traduzida ao francês, italiano, holandês, alemão, português, coreano e hebraico. Esses livros refletem seu pensamento e sua filosofia de vida. Em One People, ele defendeu a unidade judaica. No livro “A dignidade da diferença: Como evitar o choque de civilizações”, ele fala sobre a importância das diferenças religiosas. A seu ver, “para evitar um choque de civilizações não se deve tentar vencer as diferenças entre as diferentes fés, mas apreciar ‘o outro’ em toda a sua diferença”.
Em The Great Partnership: God, Science and the Search for Meaning, apresenta o livro como uma forma de promover a discussão entre a Ciência e a Religião, tendo sua força moral, intelectual e literária apoiada nas várias passagens onde se pode entrever uma pessoa profundamente preocupada em busca de “significado”, ou talvez procurando formular uma resposta inteligente e humana para um Universo que vive equilibrando-se à beira da insensibilidade. Ele acreditava que enquanto “os indivíduos podem viver sem significado, as sociedades não o conseguem” – e apenas Deus pode prover o significado de que tanto carecemos”.
Ele recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Nacional do Livro Judaico, em 2000, por “Uma letra da Torá”, o “Grawemeyer” para Religião, em 2004, por “A dignidade da diferença”, e em 2009, por Covenant & Conversation Volume.
Visitou o Brasil em março de 2013 a convite da Congregação Beit Yaacov e da Família Safra, e cumpriu uma extensa e diversificada agenda de eventos.
Vários de seus livros foram publicados e estão disponíveis em português, como Teremos Netos Judeus? e Lições da Torá (Editora Maayanot), e Uma letra da Torá, Para curar um mundo fraturado, Celebrando a vida (esgotado), A dignidade da diferença, Tempo futuro e Do otimismo à esperança (Editora e Livraria Sêfer). E os seguintes títulos, também publicados pela Editora Sêfer, estão disponíveis no blog da Editora para download gratuito,: Cartas para a próxima geração – Reflexões para Iom Kipúr, Cartas para a próxima geração 2 – Reflexões sobre a vida judaica e A arte de questionar.
Infelizmente, o Rabino Jonathan Sacks faleceu no dia 7 de novembro de 2020, aos 72 anos, em Londres, em decorrência de um agressivo câncer do qual vinha sofrendo há algum tempo.
Que sua memória seja eternamente abençoada!
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