Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAYIGASH extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer
Gênesis, Capítulo 45
7 E Deus mandou-me adiante de vós para estabelecer uma reminiscência na terra, e preservá-la a vós para que tivésseis uma grande salvação. 8 E agora, vós não me enviastes aqui, senão Deus; e Ele me pôs por pai do Faraó, por senhor de toda sua casa e governador de toda a Terra do Egito. 9 Apressai-vos e subi a meu pai e lhe direis: Assim disse teu filho José: Deus me pôs senhor de todo o Egito! Desce a mim, não te detenhas! 10 E habitarás na Terra de Góshen e estarás perto de mim – tu, teus filhos e teus netos, e teus rebanhos e tuas vacas, e tudo o que for de ti. 11 E te abastecerei plenamente, pois ainda haverá cinco anos de fome, para que não sejas empobrecido, nem tu nem tua casa nem tudo que é teu.
- para estabelecer uma reminiscência na terra, e preservá-la a vós para que tivésseis uma grande salvação. Segundo José, todo seu objetivo em preservar a Terra do Egito era preparar um terreno onde os irmãos pudessem obter grande sucesso. Na verdade, o sucesso de sua família era o principal propósito do plano Divino que envolveu toda sua saga no Egito.
- por pai do Faraó. O sentido básico de av (pai) vem do radical avá (concordar) e indica a prerrogativa paternal de ter a última palavra e a garantia que um seu filho não atuará de nenhuma forma sem a sua anuência. Em nosso caso, ser o “pai do Faraó” significava ser o “conselheiro do Faraó” que detinha a última palavra.
- E te abastecerei plenamente. Nestes versículos, José volta a ressaltar a sua visão de que todo o desenrolar dos acontecimentos se deu pelas mãos da Providência Divina. De fato, é difícil encontrar uma história que demonstra de forma tão evidente os desígnios da Providência. Esta é a interpretação mais viva e ousada do profundo ditado do rei Salomão (Provérbios 26:10) que diz: “O dono executa todas as coisas, mas quem contrata um tolo é como se contratasse um transgressor.” O “dono” é o Senhor do universo, que gera todos os presentes, dá vida a todos os acontecimentos desde seus mais remotos inícios e promove mudanças materiais e sociais. Para tanto, o Senhor também contrata tolos e transgressores para servirem aos Seus objetivos de modo involuntário. Se em nossa história os fios que vão se juntando estão revelados, e dado que em outros acontecimentos eles permanecem ocultos, ganhamos aqui uma oportunidade para aprender os caminhos de Deus.
De certa forma, podemos concluir que foi justamente por meio da túnica bordada que Jacob dera a José que o “Pacto entre os Pedaços” realizado entre Deus e Abrahão chegou ao seu cumprimento. Em Canaã, a família de Jacob não chegaria a se tornar uma nação. Como uma grande família, os seus membros acabariam se assimilando à população na qual estavam inseridos. A fim de se tornarem um povo e não acabarem absorvidos pela população local, eles tinham de ir a um povo que fosse essencialmente contrário ao caráter e às características judaicas como era o povo egípcio.
Muitos anos depois, o reacionarismo obtuso de caráter religioso que provocou a formação dos guetos judaicos também acabou servindo como um instrumento Divino para afastar os judeus das culturas pecaminosas que imperavam na Idade Média. Naquelas condições, os judeus tiveram a felicidade de desenvolver a vida familiar e o espírito comunitário – tão peculiares ao judaísmo e tão dissonantes da vida de seus congêneres – dentro de seu círculo de convivência mais estreito.
Nesse sentido, de acordo com as palavras de José, era necessário que um dos membros da Casa de Jacob viesse ao Egito antes do restante da família para que pudessem ser propiciadas as melhores condições ao desenvolvimento da família de Jacob naquela terra estranha. Em vista dos acontecimentos, esse papel coube a José, que se tornou o conselheiro do Faraó e o governante de toda a terra; ele providenciou uma área separada à sua família e garantiu que nenhum egípcio ousasse acusar seus familiares de não pertencerem àquela terra. Para atingir o seu objetivo, José ordenou adiante (47:21) que todos os egípcios trocassem de cidade de modo que, exceto os sacerdotes, não haveria quem não se sentisse como um estrangeiro no Egito.
O mesmo se passou em nossa diáspora. Antes que os descendentes de Jacob começassem a sua grande peregrinação entre os povos europeus, a Europa testemunhou diversas e numerosas migrações que mudaram toda a demografia do continente e que praticamente não poupou sequer uma região europeia de contar com estrangeiros e migrantes em seus territórios. Desta forma, quando os alemães vieram com a intolerante ordem de expulsão dos judeus, dizendo: “Voltai à Palestina, o lugar ao qual realmente pertenceis”, pudemos contestá-la com uma pergunta que não teve resposta: “E os vossos, são eles nativos deste lugar?”
No final das contas, é importante notar que, do mesmo modo que a primeira diáspora que levou Jacob ao Egito se originou pela inveja e pelo ódio gratuito dos irmãos contra José, a última diáspora que se seguiu à destruição do Segundo Templo também foi motivada pelo ódio gratuito entre irmãos, como foi observado pelos nossos sábios. Não há dúvida, contudo, de que todos os sofrimentos e perseguições da diáspora acabaram servindo como uma fornalha de fogo capaz de refinar e purificar todas as partes do nosso povo que precisavam passar por esse beneficiamento, a fim de que fosse desenvolvido um sentimento único de igualdade e união.

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAYIGASH extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.








