por David Gorodovits
No final do século 18, pequenas aldeias onde famílias judaicas viviam perdidas entre a maioria da população não judia espalhavam-se por toda a Polônia.
O Puritz, uma espécie de senhor feudal, era a autoridade reverenciada e rigorosamente obedecida por todos.
Conta-se que, numa destas aldeias, cuja paisagem era dominada pelo castelo do Puritz, erguido sobre uma montanha, morava um casal de judeus, que tinha um único filho.
Apesar de haver muito antissemitismo na região, o comportamento ético daquele casal e sua dedicação ao trabalho eram por todos reconhecidos e fundamentavam o respeito que a todos inspiravam.
Até mesmo o Puritz afirmava que gostaria que todos os seus súditos tivessem um comportamento semelhante.
Infelizmente, um trágico acidente causou a morte do casal, deixando órfão seu filho que tinha apenas dois anos.
Compadecido e pensando que a criança certamente se tornaria um homem tão honrado quanto haviam sido seus pais, o Puritz, não tinha filhos, o adotou e criou como se fora verdadeiramente seu.
Anos se passaram e, certa vez, quando o garoto já tinha 12 anos, tendo vencido um jogo que realizava com seus colegas, causou-lhes raiva, o que os levou a dizer: “Não importa que você ganhe, você continua a ser apenas um judeu e nós não gostamos de judeus’’.
Voltando ao palácio do Puritz, o jovem logo o procurou, indignado, para narrar o acontecido e perguntar por que o haviam chamado de judeu.
O “pai” explicou-lhe então: “Na verdade, há muito eu deveria ter contado a você o que vou dizer agora. Eu te amo verdadeiramente como se pode amar a um filho, mas te adotei quando você era apenas uma criança de 2 anos porque teus verdadeiros pais morreram num acidente. Eles eram judeus, e se bem que este povo não seja apreciado por nós, eles eram pessoas honradas e trabalhadoras e mereciam meu respeito. Você nada tem do que se envergonhar e continuará para sempre sendo meu filho e meu herdeiro, independentemente do que possam dizer as pessoas. Guardei para te entregar, um dia, uma caixa com algo que pertenceu a teus falecidos pais, e vou buscá-la”.
O Puritz trouxe uma caixa dentro da qual havia um livro com caracteres que o jovem não conseguia entender, um manto branco com listas azuis e franjas nas suas extremidades, e um estojo com duas caixinhas das quais sobressaiam tiras de couro.
Por vários dias o menino abria seguidamente a caixa e olhava seu conteúdo tentando entender que mensagem misteriosa aqueles objetos poderiam transmitir.
Um dia, resolveu que não teria sossego até descobrir quem eram estes judeus que pareciam não ser queridos por ninguém.
Procurou o Puritz para comunicar-lhe sua decisão, mas não o encontrou porque ele havia saído para uma caçada e demoraria alguns dias para voltar. Escreveu-lhe então uma mensagem: “Meu pai, saí em busca dos judeus porque preciso saber quem eles são”.
Muniu-se da caixa que era a única lembrança de seus verdadeiros pais, desceu a montanha e dirigiu-se às pessoas da aldeia, perguntando: “Onde estão os judeus?” A resposta não foi de seu agrado, porque lhe disseram: “Os judeus deixaram temporariamente nossa aldeia. Aproxima-se uma data em que todos se reúnem numa aldeia maior, onde têm sua igreja, para participar de um feriado religioso. Esta aldeia fica a dois dias de caminhada daqui”.
O menino não desistiu de seu intento e resolveu que também haveria de se dirigir à outra aldeia.
Buscando informações, às vezes aproveitando uma carroça que ia na direção indicada, outras vezes marchando a pé mesmo, acabou por chegar à aldeia procurada, onde tornou a perguntar: “Onde estão os judeus?” Responderam-lhe: “Pela segunda vez nestes últimos dias, estão reunidos em sua igreja, que chamam de sinagoga, pois começa hoje seu dia santo”. Informaram-no como encontrá-la e o jovem para lá se dirigiu.
Ao chegar, anoitecia e os judeus celebravam Col Nidrei, o início do Dia do Perdão. Ele entrou na sinagoga e viu todos os homens envolvidos em mantos iguais ao que se pai lhe deixara, segurando livros com as letras incompreensíveis que apareciam no livro de seu pai e entoando uma melodia que penetrava fundo em seu coração e que o fazia ter vontade, ao mesmo tempo, de chorar e sorrir e de se unir àquele grupo de pessoas que, embora totalmente desconhecidas, traziam-lhe a sensação de ser sua família.
De repente, um grito interrompeu as preces. Todos se voltaram para a porta onde o menino soluçava e gritava: “Meu Deus, eu não entendo Tuas letras, não conheço Tua língua e não sei cantar Tuas melodias, mas receba-me, pois sou apenas um menino judeu voltando para casa”.








