A seguinte história foi contada pelo rabino Iossef Chaim de Bavel, conhecido como Ben Ish Chai:
Iechezkel era um lenhador. Seu pai e seu avô haviam sido lenhadores, e muito provavelmente seus filhos também seriam. Não era um trabalho fácil. Iechezkel precisava acordar cedo todos os dias e ir para a floresta, na qual cortava madeira durante toda a manhã. Quando o Sol estava bem em cima de sua cabeça, amarrava as madeiras em pacotes e os levava à cidade a fim de vendê-las como lenha. Tudo o que lucrava no dia era usado para alimentar sua esposa e seus filhos, e nada restava para momentos difíceis ou para dias melhores.
Um dia, no calor do verão, ele partiu para a floresta como de costume, a fim de cortar a cota diária de lenha. Mesmo de manhã, o calor era insuportável. Cada vez que levantava o machado, o trabalho ficava mais difícil. O suor escorria-lhe por suas costas. Ao meio-dia, ele estava completamente exausto.
“Será o calor ou estou ficando velho? As coisas nunca vão mudar? A vida será sempre tão difícil?” – ele perguntou a si mesmo. Depois disso, inclinou-se para amarrar as madeiras que havia cortado. Ele estava prestes a levantá-las e a começar a andar em direção à sua casa quando, de repente, mudou de idéia.
“Está quente demais para andar sob este Sol escaldante. Se eu tirar um cochilo debaixo desta árvore, serei capaz de andar duas vezes mais rápido, pois estarei renovado.”
Observou o feixe de lenha com amargura, pois ela simbolizava o seu destino. “Por que sou um homem tão sem sorte?” – pensou ele. “Por que devo trabalhar incessantemente e não enxergar bênção alguma em meu trabalho? O que tenho da vida? Alguns legumes murchos ao final do dia para comer com uma casca de pão seco. Nunca poderei bancar um pedaço de carne sobre minha mesa? Nunca? Nunca conhecerei o sabor de uma maçã, uma laranja, uma banana? Por que preciso trabalhar tão duro e receber tão pouco em troca? Não é justo! Nunca verei o brilho de uma moeda de ouro em minhas mãos, somente de alguns poucos centavos de cobre? Por que, Deus? Diga para mim, por quê?”
Não havia ninguém ali para vê-lo, então ele permitiu que as lágrimas corressem soltas. Exausto de trabalho e lágrimas, recostou-se sobre um tronco de árvore e adormeceu. E teve um sonho, no qual um belo jovem apareceu diante dele, carregando um cetro de ouro. Ele era bonito, tinha uma face nobre e lindos olhos. Quando sorria, parecia que o Sol jogava todos os seus raios brilhantes sobre ele. O jovem disse: “Deus ouviu seu suspiro de angústia e me enviou para conceder qualquer pedido que você fizer…” O pobre lenhador sequer hesitou e respondeu: “Quero que tudo o que eu toque transforme-se em ouro!” “Muito bem, assim será!” – disse o jovem. Ele tocou o lenhador com seu cetro de ouro e depois desapareceu.
O homem percebeu que aquele era um anjo enviado dos Céus para ajudá-lo. Estava radiante, pois ele e sua família não passariam mais fome. Seriam ricos se tudo o que tocasse virasse ouro. Para testar seus novos poderes, ele tocou um pedaço de madeira do saco de lenha. Lá estava! O lenhador o transformara em ouro. Um pedaço de madeira de ouro!
“Que maravilha!” – o homem se excitou. “Agora nem preciso mais ser lenhador. Posso viver uma vida de descanso e deixar que outros façam o trabalho pesado! Estou resolvido por toda a vida! Construirei uma mansão, contratarei criados e vestirei roupas de seda assim como a nobreza! Tudo o que preciso fazer se quiser dinheiro é tocar uma pedra, um pedaço de madeira, um montinho de terra – e tudo será ouro! Quem pode comparar-se a mim? Serei a pessoa mais rica do país! Haverá algum rei que se compare a mim em riqueza?”
Ele levantou-se e se espreguiçou, renovado após o cochilo. Esticou a mão a fim de pegar seu cantil de água, pois estava quente naquele dia. Encostou seus lábios para beber do cantil. Mas, assim que o tocou, o cantil transformou-se em ouro. “Que maravilha!” Ele o inclinou a fim de beber. Porém a água não escorreu! “O que aconteceu?” – pensou o homem. A água, quando tocara seus lábios, também se transformara em ouro. Ele tentou pegar um pedaço de pão em sua mochila, mas este também estava transformado em ouro.
De repente, percebeu como havia sido tolo. Esteve tão ávido por riqueza que esqueceu a que ponto ridículo poderia chegar e o que o amor pelo ouro poderia causar. “Que tolo eu fui! O que fiz? Passarei fome até morrer. Tudo o que eu tocar será transformado em ouro e serei incapaz de comer e beber coisa alguma! Vendi minha alma por ouro! Mas que proveito terei disso se vou morrer de fome? Como terei prazer de minha fortuna? Era tão melhor quando eu trabalhava por meu pão de cada dia – eu era capaz de aproveitar dele!”
O homem caiu em prantos e acordou. Fora apenas um sonho. Ele olhou ao seu redor, viu seu saco de lenha, sua mochila e seu cantil. Nada havia mudado. Nada havia se transformado em ouro. Como estava grato!
“Fora tudo um sonho. Mas sua intenção era me ensinar uma profunda lição. Devo aprender a me satisfazer com minha porção, estar agradecido por ter um trabalho que alimenta a mim e à minha família. Não invejarei mais aqueles que possuem riqueza, pois não necessariamente eles são mais ricos que eu!”
Extraído da série CONTOS DE TSADIKIM









