por David Gorodovits
Existia, no século passado, uma loja, numa pequena cidade da Polônia, que era procurada por quase todos os seus habitantes, pela correção com que eram atendidos todos os clientes e pela sabedoria que emanava das palavras de seu proprietário.
Ele era por todos reconhecido como um profundo conhecedor da Torá (os cinco livros de Moisés) e muitos iam à sua loja, mesmo sem nada precisar comprar, apenas para ouvir um conselho ou receber uma orientação.
Sua esposa, totalmente dedicada à família e à seus dois filhos, sempre embebidos no estudo do Talmud, eram seu orgulho.
A supervisão da loja era exercida com atenção por seu gerente, o que lhe permitia mais tempo para dedicar-se ao estudo, e isto constituía seu maior prazer.
Todo ano ele fazia uma viagem para a grande feira de Varsóvia, para adquirir os materiais que eram remetidos ao longo do ano.
Certa vez, quando seguia em seu coche numa destas viagens em companhia de seu gerente, pediu para descer em um determinado ponto do trajeto, onde havia uma rocha que se projetava sobre um abismo e era muito procurado por aqueles que gostavam de apreciar a paisagem, e ordenou que o aguardassem.
Dirigiu-se a rocha e por alguns instantes ficou a admirar a paisagem, entre muitas outras pessoas que faziam o mesmo, pronunciando, intimamente, uma oração de agradecimento ao Eterno, por ter criado um mundo onde havia tanta beleza.
De volta ao coche, prosseguiu a viagem, mas quando buscou a bolsa onde guardava o dinheiro para as compras e que trazia sempre pendurada ao ombro, percebeu que ela havia desaparecido. Certamente, ao debruçar-se para olhar a paisagem, deixara-a cair.
Por um instante pensou em voltar para procurá-la, mas raciocinou que, se ela caíra no abismo, era irrecuperável, e se tivesse caído no piso onde estivera a contemplar a paisagem, certamente alguém já a teria encontrado e se apropriado de seu conteúdo.
E o que iriam dizer sobre um comerciante tão descuidado, que perdera todo o dinheiro destinado às compras anuais, simplesmente porque resolvera admirar uma paisagem!
Era melhor nem comentar o assunto…
Ao chegar à feira, nada comprou. A cada produto que lhe ofertavam, atribuiu um defeito. A verdade, porém, é que não dispunha de dinheiro para comprá-los…
Passados alguns dias, iniciou seu regresso e, ao passar pelo ponto em que parara no caminho de ida, novamente ordenou que parassem o coche e dirigiu-se ao penhasco. Ao olhar para o piso, eis que encontrou sua bolsa e, ao examiná-la, viu que estava intacta, com todo seu dinheiro.
Ao se aperceber disto, seu semblante ficou toldado de angústia, e ele começou a chorar, cada vez mais intensamente, até o ponto em que era sacudido por soluços incontroláveis.
O gerente veio em seu socorro, procurando acalmá-lo, sem compreender o que se passava, e o reconduziu ao coche, que prosseguiu seu caminho. Somente no fim da viagem ele melhorou e pode chegar em casa sem deixar transparecer a angústia que o havia assaltado.
Desse dia em diante, parecia que sua sorte havia mudado. Sua esposa, acometida por uma súbita doença, faleceu, deixando-o envolto em tristeza. Seus filhos decidiram construir suas vidas noutro lugar, pois sem a presença confortadora de sua mãe, sua cidade lhes parecia pequena e opressiva. Na loja, a falta de novas mercadorias reduziu as vendas e o gerente decidiu deixá-la e constituir sua própria empresa. Sem sua cuidadosa supervisão, os empregados começaram a roubar e atender mal aos clientes que, ante tal tratamento, desertaram e passaram a comprar na nova loja do antigo gerente. As coisas andaram tão mal que foi preciso solicitar a falência da empresa…
O respeito que ainda lhe tinham muitas pessoas fez com que lhe proporcionassem ajuda para abrir uma loja menor, mas também essa acabou por falir.
O antes próspero comerciante, de desgraça em desgraça, começou a descer os degraus da escada social e, sem conseguir recuperar sua autoconfiança, acabou tornando-se uma pessoa dependente da caridade, que vivia do que lhe davam, dormindo no abrigo comunitário, vestindo uma única roupa cada vez mais esfarrapada.
Mas ele era sempre convidado nas noites de sexta-feira para o jantar de Shabat de alguma família que cumpria a Mitsvá (mandamento) de receber necessitados.
Numa ocasião, fora convidado para a casa de uma família, a qual iria encontrar na Sinagoga, para depois seguir para o jantar, mas antes passou no Mikvê (casa de banho ritual de purificação). Ao entrar, despiu suas roupas e foi banhar-se. O Shames (servente), vendo roupas tão velhas e puídas, achou que tinham sido descartadas por alguém e as jogou fora. Ao sair do banho e perceber que não tinha o que vestir, sua fisionomia começou a se transformar, deixando transparecer uma alegria crescente. Seu rosto irradiava luz, seu riso tornou-se cada vez mais alto e ele começou a cantar e a dançar como se fosse a pessoa mais feliz do mundo.
Assustado com o que lhe parecia um acesso de loucura e sentindo-se responsável pelo que acontecera, o Shames trancou-o num pequeno cômodo e saiu a procura da família que havia convidado o “louco”. Estes providenciaram-lhe roupas e o levaram para sua casa.
Após a refeição, depois de cantarem as Zemirót (canções de Shabat) e rezado o Bircat Hamazon (oração de graças após as refeições), o dono da casa dirigiu-se a seu convidado, dizendo:
– Talvez o senhor não esteja me reconhecendo, mas sou seu antigo gerente. Lembro-me que, na última vez que viajamos para a feira de Varsóvia, o senhor fez o coche parar no caminho de ida, e na volta o fez parar no mesmo lugar, e de repente começou a chorar e soluçar como a mais desesperada das pessoas, e não quis explicar as razões para tal procedimento. Soube que hoje, no Mikvê, quando percebeu que haviam jogado fora sua única roupa, o senhor começou a cantar, dançar e rir como a mais feliz das criaturas. Sinto que entre estes dois comportamentos há uma relação. O senhor não quer me explicar qual é?
– Sim, eu vou te explicar. Na ocasião da viagem a Varsóvia, eu era alguém a quem o Eterno havia aquinhoado tudo: uma esposa dedicada, filhos que eram meu orgulho, uma loja que assegurava minha sobrevivência e que me deixava bastante tempo para estudar, e até mesmo uma bolsa repleta de dinheiro, que perdi num lugar em que parecia impossível de recuperar, mas que encontrei intacta, com todo o seu conteúdo. Quando isto aconteceu, compreendi que a roda da minha vida tinha alcançado seu ponto mais alto e que, daí em diante, ela só poderia descer, e por isto, chorei e me desesperei pensando no sofrimento que me aguardava. Hoje, porém, quando meus negócios faliram, minha esposa faleceu, meus filhos me deixaram e eu percebi que nem sequer tinha uma roupa para vestir, compreendi que a roda do meu destino havia chegado ao ponto mais baixo, e que daí em diante só poderia subir, e por isto eu me alegrei e cantei, agradecendo antecipadamente ao Eterno por tudo de bom que Ele haveria de me proporcionar.








