por David Gorodovits
Conta-se que, numa certa família, mantinha-se há muitas gerações o costume de que o pai, quando sentia aproximar-se o término de sua vida, entregava ao filho um anel com o emblema heráldico, que passava a ser usado por ele, caracterizando-o como o novo chefe, até que, por sua vez, o entregasse a seu descendente.
A tradição se mantivera sem contestações por muitos anos, porque em cada geração nascia somente um filho.
Agora, porém, o pai, que percebera chegar o momento da entrega do anel, não sabia como agir, pois tivera 3 filhos. Imaginava que o filho que recebesse o anel se sentiria com autoridade para chefiar a família, mas se os outros dois não concordassem, uma luta fratricida poderia vir a acontecer.
Após noites angustiantes, procurando uma solução que não quebrasse a paz familiar, ocorreu ao pai uma ideia, que imediatamente pôs em prática.
Buscou um joalheiro, a quem encomendou duas cópias do anel original, que foram executadas com tal maestria, que ninguém conseguiria distinguir qual deles era o verdadeiro. Depois, chamou separadamente a cada um dos filhos e entregou-lhe um dos anéis.
Após seu falecimento, quando voltavam do enterro, o filho mais velho apresentou o anel, que guardara oculto, e disse a seus irmãos: “Agora sou o chefe da família pois a mim foi confiado o símbolo que caracteriza esta posição”.
Cada um dos outros o contestou, apresentando seu exemplar do anel e afirmando que a ele cabia a posição de chefe.
Discutiram longamente sobre qual seria o anel verdadeiro, pois logo perceberam o que seu pai havia feito, mas não encontraram evidências que lhes permitisse chegar a uma conclusão aceita por todos, pois cada um afirmava que seu anel era o original.
Após muito tempo chegaram a um consenso. Um dos filhos fora tão amado pelo pai, que dele merecera receber o anel tradicional. Não sabiam, na verdade, qual deles teria sido, embora cada um se considerasse o escolhido. Então, a única forma que teriam para honrar a memória e a vontade do pai seria respeitarem-se mutuamente, como se cada um deles fosse o herdeiro escolhido.
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Da mesma forma, o Eterno permitiu que os seres humanos escolhessem vários caminhos para chegar até Ele. Cada um se considera detentor do verdadeiro caminho, mas não se pode honrar nosso Pai Celeste se não soubermos honrar e respeitar em cada ser humano esta liberdade de escolha que Ele concedeu.
O respeito mútuo entre todos os credos é, talvez, o caminho que conduzirá o mundo, hoje tão conturbado, a uma era de compreensão e paz.








