Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAYICHÍ extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer
Gênesis, Capítulo 48
15 E abençoou a José, e disse: O Deus diante de Quem andaram meus pais, Abrahão e Isaac, o Deus que me sustentou desde que nasci até hoje,
16 o anjo que me salvou de todo mal, abençoe aos jovens; e seja chamado neles meu nome, e o nome de meus pais Abrahão e Isaac; e multipliquem como os peixes, muito, no meio da terra.
- o anjo que me salvou de todo mal, abençoe aos jovens. Devido ao contexto, é muito difícil considerar que a bênção prometida aos jovens seria dada pelo “anjo que me salvou”, ainda mais se levarmos em conta que o versículo anterior se referiu a Deus como o Senhor das bênçãos. Desta forma, devemos analisar o conjunto destes versículos para entender o significado deles.
Segundo a interpretação dos nossos sábios no Midrash (Bereshit Rabá 97:3), quando o versículo mencionou o “anjo que me salvou” logo depois da menção do “Deus que me sustentou”, houve uma equiparação entre os conceitos de “redenção” e “sustento”. Isso levou os nossos sábios ao entendimento de que “do mesmo modo que a salvação se configura por milagres, o sustento também se configura por milagres, e tal qual o sustento acontece diariamente, a salvação também ocorre diariamente.”
Encontramos, pois, que a salvação mencionada neste versículo não se refere necessariamente à salvação de um perigo específico, mas à redenção que nos acompanha diariamente através da intervenção da Providência Divina no mundo, que supervisiona especificamente tudo que acontece, para além da atuação Divina que implanta ordem geral no nosso mundo.
Para ilustrarmos essas palavras, basta citar que o próprio fato de uma pessoa honesta conseguir encontrar o seu sustento sem abrir mão de sua correção e moralidade deve ser considerado uma situação que extrapola a normalidade e a naturalidade do mundo, pois trata-se de um milagre, um contínuo regalo dado à humanidade pela Providência Divina. Do mesmo modo, para que essa pessoa honesta e correta consiga escapar dos males físicos e sociais que assolam o nosso mundo sem lançar mão de violência e imoralidade, ela também precisa contar permanentemente com a ajuda e a salvação advindas de Deus.
Se apenas nos fossem dados olhos para enxergar – dizem os nossos sábios –, nos depararíamos com toda sorte de agentes deletérios e elementos malignos que estão à nossa espreita para nos prejudicar física e socialmente. Ai de nós se pudéssemos entrever tudo isso! Devemos nos felicitar por não conseguir perceber toda a inveja e as más intenções, a destruição e os sofrimentos dos quais somos poupados e dos quais saímos ilesos em nossa vida social. É esse o “todo o mal” que o versículo nos informa de que somos salvos por Deus a cada momento de nossas vidas sem sequer ficarmos cientes do perigos pelos quais incorremos.
Ainda à luz da equiparação entre “sustento” e “salvação”, o Rabi Shemuel ben Nachmani disse o seguinte no Midrash (ibid.): “Maior é o sustento que a salvação. Enquanto a salvação é realizada por um anjo, o sustento vem diretamente de Deus.” Se o nosso entendimento sobre este ditado não padece de algum erro, ele vem nos ensinar que a “salvação contínua” contra os sofrimentos deve preceder o sustento, sendo condição prévia e necessária para a existência humana. Essa salvação é dispensada aos seres humanos e aos povos logo no mais remoto início e estado seminal dos mesmos, configurando-se, de certa forma, como o próprio raio de atuação disponibilizado pela Providência Divina a esses entes em meio a todo o caos que reina no nosso mundo. Em outras palavras, o conceito dessa salvação pode ser entendido como sendo a “sorte” e o “destino” previstos a cada pessoa e a cada povo. Desta forma, não cabe ao judeu ater os seus anseios com o que se passa com a sua “sorte”, pois não é a “sorte” que define o que se passará com o ser humano, uma vez que ela mesmo – a própria sorte – não é nada além de um “anjo” no desempenho de uma missão fixada e definida por Deus.
Portanto, retornando ao nosso versículo, Jacob rezou para que seus netos fossem abençoados pelo mesmo anjo que o salvou de “todo mal” a fim de que eles viessem a ter o mesmo destino e as mesmas condições favoráveis que lhe propiciaram uma verdadeira jornada de sucesso no decorrer da sua vida; que eles não tenham de viver como Esaú, sob a concessão da espada, mas que busquem, como ele mesmo, Jacob, guarida e lastro apenas em Deus, para que “seja chamado neles meu nome, e o nome de meus pais”.
e multipliquem como os peixes. A menção aos peixes vem expressar toda a profundidade da bênção de Jacob e nos ensinar o significado de pertencer ao povo de Jacob e o que significa ser chamado pelo seu nome, bem como nos demonstrar o caminho pelo qual “andaram” os nossos pais e a senda pela qual devemos seguir a fim de sermos sustentados por Deus e redimidos por Seu emissário.
Em seu distinto território, nas profundezas das águas que não são alcançadas pelos olhos dos seres humanos que se encontram na superfície, os peixes vivem a sua vida tranquilamente, livres de qualquer preocupação e cheios de vitalidade, mantendo-se em enorme profusão de geração em geração. É dessa forma que os descendentes de Jacob devem levar a sua vida independente, tranquila e satisfatória: eles devem viver “no meio da terra”, num território que se mantém separado e inacessível ao mundo à sua volta como os peixes dentro da água, para alcançarem assim prosperidade e desenvolvimento.
Gênesis, Capítulo 49
1 E Jacob chamou a seus filhos e disse: Reuni-vos como um só e vos anunciarei o que vos acontecerá na posteridade dos dias. 2 Mantenhai-vos juntos e escutai, filhos de Jacob; e ouvi a Israel, vosso pai. 3 Ruben, tu és meu primogênito, minha força e o primeiro dos meus bens, privilegiado em dignidade e privilegiado em poder. 4 (Tua) fluidez, como da água, te privou de tirar vantagem, porquanto subiste ao leito de teu pai e profanaste quem em meu leito subiu.
- Reuni-vos (heassefú) como um só! O significado de “reuni-vos” deste versículo não é o mesmo que “mantenhais-vos juntos” do próximo. Enquanto no próximo versículo a referência é à própria união física, neste, o significado principal do verbo heassefú (reuni-vos) é “tirar algo de um território estranho, de um lugar ao qual o objeto não pertence, para acolhê-lo em seu verdadeiro lugar”. Aqui Jacob diz aos seus filhos: “Apartai-vos de tudo que é estranho e estrangeiro e vos reuni em torno do vosso objetivo comum! Mantenhais-vos focados naquilo que é compartilhado por todos vós! Posicionai-vos todos sobre um mesmo solo!” Ou seja, o chamado de “reuni-vos como um só” visava promover a concentração num único ponto e objetivo.
na posteridade (acharit) dos dias. É importante distinguir entre os termos acharit (posteridade) e kêts (fim). Se “fim” indica o ponto no qual um objeto deixa de existir, “posteridade” indica aquilo que permanece depois do fim. Dessa forma, Jacob fez menção de revelar aos seus filhos o que aconteceria depois que o tempo cumprisse a totalidade de sua missão no desenvolvimento da história.
Como viremos a saber pela continuação do relato, Jacob não enxergava os seus filhos como um conjunto único, motivo pelo qual ele os abençoou separadamente, cada um de acordo com suas características. Deste modo, não devemos entender que o chamado dele à união visasse dirimir as diferenças e particularidades presentes em seus filhos, mas sim, incutir neles a necessidade de que todos dedicassem o melhor de suas características a um único espírito, e seria apenas assim que ele poderia revelar o que lhes aconteceria na “posteridade dos dias”. Nas palavras de Jacob: “Realmente, vós sois diferentes uns dos outros, mas ainda assim entregai-vos a vós mesmos, inclusive vossas próprias diferenças, ao espírito único que vos une, e então eu vos revelarei o que se passará convosco na posteridade dos dias.”
Ou então, de outro modo, Jacob pode ter dito: “Somente quando todos vós estiverdes num só espírito chegará a posteridade dos dias.” Não só que a “reunião de todos em um só” precisaria se tornar uma realidade para que este dia pudesse chegar, mas o próprio conceito do que era a “posteridade dos dias” não seria entendido corretamente por eles antes que consumassem aquela união. Por esse motivo, antes que a pretendida união fosse levada a cabo, Jacob não tinha como se estender sobre do que se tratava a ideia de “posteridade”, razão pela qual ele se referiu a ela apenas em poucas palavras.
- Mantenhai-vos juntos e escutai. Essas duas expressões ditas pelo nosso patriarca à beira da morte resumem o fundamento de toda a história judaica desde o início até o fim dos tempos. Pelo aspecto material, os “filhos de Jacob” são uma minoria desamparada e indefessa que se encontra no epicentro de um mundo cruel e impiedoso, sendo justamente por isso que os filhos de Jacob precisam estar unidos e congregados. Mas além dessa união, os filhos de Jacob também precisam estar aptos a “escutar” e se entregar aos valores espirituais a fim de superar a sua condição de minoria, para então alcançarem algum tipo de vitória contra a poderosa maioria. Na mensagem de Jacob, os seus filhos precisavam sentir uma sede espiritual que os motivasse a escutar e absorver tudo quanto pudessem das fontes do espírito. Por assim dizer, o legado do nosso patriarca pode ser resumido da seguinte forma: os seus filhos hão de manter, acima de tudo, a “união e o espírito” como meio de alcançarem força e longevidade. No momento em que os filhos de Jacob se despertarem para valores espirituais, que estejam sedentos apenas pela tradição de Israel, e assim eles certamente estarão dando ouvidos a “Israel, vosso pai”.
- Ruben, tu és meu primogênito. Conforme vimos no versículo anterior, a primeira vontade que veio à mente de Jacob naqueles momentos que precediam a sua morte foi ressaltar aos seus filhos a importância da união e do espírito, de modo que se mantivessem unidos depois do seu passamento, que se entregassem uns aos outros e que se interessassem em assuntos espirituais. Este era basicamente todo o legado espiritual que Jacob tinha a deixar aos seus filhos. Porém, um grupo tão heterogêneo que visasse formar uma verdadeira união precisaria contar com liderança, e isso levou Jacob a verificar quem, entre seus filhos, era a pessoa mais capaz para atuar como seu sucessor. Como o candidato natural para exercer essa função era o seu filho primogênito, Jacob se dirigiu inicialmente a Ruben.
minha força. A palavra côach (força) é próxima de cô (assim), que por sua vez é próxima de kehê (escuro). Essa proximidade pode ser entendida pelo fato de que a “força” que move a realidade para se configurar como tal tende a ficar ocultada aos olhos daqueles que apenas enxergam os resultados e as consequências práticas do que acontece, mas não as suas motivações, que permanecem obscuras e inacessíveis à maioria das pessoas.
e o primeiro dos meus bens. Conforme explicamos acima (35:18), o termo oní (“meus bens”) remete à prerrogativa pessoal de adquirir um objeto e possui-lo. Neste caso, Jacob estava a dizer que a primeira de suas conquistas foi conseguir educar Ruben e formar seu caráter espiritual, sendo que essa foi a primeira realização que demonstrou a força de Jacob. Nesse sentido, ao chamar os seus filhos de “meus bens”, Jacob prossegue o raciocínio expresso no final do capítulo anterior (48:22) quando se referiu a seus filhos como aqueles que “tomei com minha espada e com meu arco da mão do Emoreu”, conforme explicado.
Alternativamente, é possível que Jacob tenha expressado com as palavras “minha força e o primeiro dos meus bens” que Ruben foi o filho escolhido para atuar como depositário da “minha força” com o objetivo de manter vivo o seu espírito neste mundo depois do seu falecimento. E embora Ruben não tenha sido o único filho a cumprir essa missão, nós sabemos que a formação bem-sucedida de um filho primogênito acaba sendo vital para a educação dos demais filhos, tanto se forem poucos quanto se forem muitos. Assim, a menção especial de que Jacob fez a Ruben como sendo a “minha força”, dento do contexto da perpetuação de seu legado, era mais do que merecida.
privilegiado em dignidade e privilegiado em poder. Nas palavras de Jacob: “Tu és o primogênito, e como tal tu mereces ocupar uma posição distinta entre teus irmãos, bem como deves possuir maiores direitos. O teu destino é ser o ‘príncipe’ de teus irmãos, a cabeça e a liderança de toda a família, e por isso tu deves receber uma parte dobrada em termos de força material para que isso possa te servir como uma base de sustentação à tua liderança espiritual.”
- (Tua) fluidez (pacház), como da água. Infelizmente, o radical pacház aparece muito pouco na Escritura. Aparentemente, ele indica algum tipo de deficiência, e como aqui ele está relacionado à água, talvez se refira à sua instabilidade interna e fluidez, entre as inúmeras características da água que, por ser um líquido, escorre sempre para o ponto mais baixo ou evapora e sobe às nuvens para depois irrigar a terra. Na linguagem dos nossos sábios encontramos (TB Avoda Zará 56b e 72b) também esse radical no sentido de “as águas transbordaram”. O que é indiscutível é que se trata de um substantivo – e não de um adjetivo – e que pacház é o sujeito desta oração.
te privou (al) de tirar vantagem (totar). O termo al é um advérbio de negação; e como totar é um verbo na forma ativa (hif’il) e está relacionado a harbe (ter muito) e ioter (ter a mais), a locução al totar tem o sentido de impedimento ou privação. Portanto não pode significar “não terás estas vantagens”, pois al totar é o predicado de pacház e tem de se referir a pacház. Por conseguinte, essa frase deve traduzida assim: “(Tua) fluidez – ou seja, a instabilidade da tua personalidade e caráter – te privou de tirar vantagem – e usufruir dos direitos reservados a ti como filho primogênito e merecer as vantagens inerentes porque “subiste ao leito” e “profanaste quem subiu em meu leito” – ou seja, a ti mesmo. E todo esse contorcionismo textual e sutileza foi feito a fim de preservar a honra de Ruben.
e profanaste quem em meu leito subiu. Jacob se refere aqui ao ato cometido por Ruben depois do falecimento de Rachel, quando ele (35:22) “colocou a sua cama ao lado da de Bilá”.
Entretanto, por mais que Ruben padecesse de uma instabilidade que não lhe permitia ser o líder de todos os irmãos, haja vista que esse papel exigia a capacidade de se manter incólume diante de todas as pressões, o conjunto da fala de Jacob revela o grande apreço dele por seu filho primogênito, mesmo ele não sendo a pessoa ideal para sucedê-lo. Isso nos ajuda a contextualizar o próprio pecado de Ruben referido por Jacob nesta oportunidade, fazendo-nos entender mais uma vez que Ruben não se deitou de fato com Bilá, pois, se assim tivesse feito, Jacob não teria lhe dispensado o tratamento delicado com o qual nos deparamos nesse versículo. Mas a verdade é que dado o enorme potencial de Ruben, um pequeno erro como o que ele cometeu ao posicionar a sua cama ao lado da cama de Bilá veio a ser considerado uma falha tão grave que não tinha como ser ignorada neste momento em que a família de Jacob passava por tal processo de transição geracional.

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