Que lição o Baal Shem Tov desejava transmitir-lhes desta vez? – perguntavam-se os chassidim quando foram instruídos a subir na carruagem. Esta seria mais uma viagem que lhes proporcionaria uma nova visão dos misteriosos e maravilhosos caminhos de Deus e da grandeza de Seu povo escolhido, o povo judeu, cujos membros mais simples são capazes de atos de profundo amor e fé.
Como de costume, os cavalos tinham as rédeas soltas. Uma vez fora de Mezibuz, levantaram as patas e começaram a voar entre colinas e vales, por meio de cidades e vilarejos, rumo a um destino desconhecido.
Os chassidim estavam sentados dentro da carruagem; o rebe estava falando. Ele lhes contava sobre a Providência Divina de Deus sobre cada criatura do mundo. De Seu exaltado trono nos Céus, Ele vê e guia tudo o que acontece embaixo. Nada escapa da atenção de Deus, e nada é pequeno demais ou insignificante demais…
Os chassidim ouviam atentamente essa profunda lição e estavam certos de que logo seria aplicada num fato real, algo que se relacionava a esse passeio. Pensavam nas palavras do rebe, sem perceberem para onde iam.
Após muitas horas, a carroça parou em frente a uma hospedaria. O estalajadeiro judeu correu para fora, dando as boas-vindas aos visitantes com calor e alegria. Ele se apressou a servir alguns refrescos na mesa e, enquanto se ocupava com os chassidim, ouviram-se três batidas na janela, que foram seguidas por três batidas na porta. Um rapaz não-judeu entrou pisando fortemente, bateu três vezes na mesa de madeira e partiu tão estranhamente quanto como chegou.
“Qual é o significado deste comportamento estranho?” – o rebe Baal Shem Tov indagou ao dono da hospedaria.
“Ah, este é o mensageiro do senhor das terras. Esta é a sua forma de me lembrar que hoje é o dia do pagamento do aluguel, que deve ser pago uma vez ao ano. Se eu não tiver o dinheiro até o amanhecer, ele mandará seus soldados para me prender. Então sentarei na prisão até pagar a minha dívida.”
“Você não parece muito preocupado com isso” – o Baal Shem Tov comentou. “Você provavelmente já preparou o dinheiro. Por que então não faz o pagamento já? Não se preocupe conosco. Permaneceremos sentados aqui aguardando seu retorno.”
“Oh, mas você está enganado. Não possuo nem mesmo um centavo do lucro anual em meu bolso. Este foi um ano muito difícil, tive muitos gastos e poucos rendimentos. Mas não estou muito preocupado, pois tenho fé em Deus, que não abandonará um judeu num momento de dificuldade. De qualquer forma, tenho prazo até amanhã. Muita coisa ainda pode acontecer, e não estou com medo. Enquanto isso, minhas nobres visitas, lavem as mãos e sentem-se para uma refeição quente. Eu sei que as coisas acabarão bem.”
Os chassidim pareciam mais preocupados que o estalajadeiro! Mas quando viram que ele preparara uma bela refeição e que o rebe lavava as mãos, eles o seguiram e sentaram-se para a suntuosa refeição. Quando chegaram às palavras do bircat hamazon em que se pede a Deus que envie “bênçãos plenas para esta casa”, o rebe cerrou os olhos com uma concentração profunda. Quando terminou, os chassidim responderam “Amen” fervosamente.
Percebendo que suas visitas não mais precisavam dele, o dono da hospedaria vestiu seu paletó de shabat e desculpou-se por sair. “Eu preciso ir ao proprietário das terras agora. Vocês me perdoarão, não é?”
“Mas o que você fará?” – perguntou o rebe. “Você não possui o dinheiro do pagamento. Com certeza você não espera voltar. Ele jogará você na prisão!”
O homem sorriu. “Não estou preocupado, pois alguma coisa acontecerá. Deus me salvará de alguma forma, tenho certeza.”
Os chassidim aglomeraram-se na porta, admirados por sua postura. O homem não estava nem preocupado! Como era profunda a fé desse simples judeu! Eles nunca viram nada que se comparasse a isso!
O homem seguiu pela trilha rumo à luxuosa mansão do senhor das terras. O que poderia acontecer para salvá-lo dentro dos poucos minutos que levaria para chegar ao destino? Eles observavam atentamente.
De repente, avistaram uma carruagem que parou justamente ao lado do dono da estalagem. Seu ocupante, um homem que aparentava ser rico, desceu e começou a conversar com o dono da hospedagem. Eles conversaram durante alguns minutos e, então, o homem retornou à carroça. O dono da hospedaria continuou descendo a trilha.
Depois, o homem da carruagem parecia ter mudado de idéia, pois alguns minutos mais tarde chicoteou os cavalos e fez com que alcançassem o estalajadeiro no caminho, que foi detido novamente. O homem da carruagem desceu para discutir algo seriamente com o caminhante. Desta vez, o homem pegou uma bolsa e começou a contar o dinheiro que colocava na mão do dono da hospedaria, que pegou o dinheiro e seguiu em direção à mansão. O homem rico deu um sinal aos cavalos e a carroça logo corria na direção da estalagem. “Agora nossa curiosidade será satisfeita” – disse o Baal Shem Tov aos atentos chassidim.
O homem cavalgou até a estalagem e desceu da carroça, entrou na estalagem e sentou-se à mesa. Dirigindo-se ao grupo de chassidim, contou-lhes:
“Que pessoa maravilhosa é o dono desta hospedaria! Acabei de pará-lo na rua para negociar uma venda. Eu desejava comprar meu estoque de inverno de whisky de sua fábrica. Sei que é um homem honesto; contudo, não concordei com sua primeira oferta e deixei que seguisse seu caminho. Ele disse que necessitava de uma certa quantia para pagar seu aluguel anual e não concordaria com nada menor que a soma completa. Eu pensei novamente e decidi que o valor era justo, então corri para alcançá-lo. Fizemos o negócio ali, na estrada, e paguei toda a soma em dinheiro vivo. Era exatamente o necessário para seu aluguel, disse ele. Ele teria que ir pagar a dívida, mas pediu que eu o esperasse na estalagem.”
Os chassidim olharam uns aos outros. Deus respondeu às preces do bom judeu. Ele não desapontou sua profunda fé, e, no último minuto, forneceu toda a soma de que necessitava.
O Baal Shem Tov assentiu: “Vejam, este é o poder da fé pura…”
Agora estavam prontos para retornar a Mezibuz, pois haviam aprendido uma poderosa lição naquele dia, da qual jamais esquecerão.
Extraído da série CONTOS DE TSADIKIM









